segunda-feira, 21 de maio de 2018

Beautiful land

Acordar cedo, que tortura fascinante, que algo impossível de ser feito em qualquer momento da vida, nunca estou preparado, nem sei se preciso tanto desse feito.
Hoje por fim, acordei de um sonho. Acordei e aquela névoa se manteve sobre o quarto e as janelas. E me perguntei risonho, por que diabos sonho de maneira tão real. E por que dessa vez acordo tão cedo, com a sensação de ainda estar lá, no lugar em que nunca mais irei voltar.
Móveis, objetos, aconchego, a luz obtusa de uma janela distante. O quarto, também, o quarto triste, de um lugar que não mais existe, num espaço que apenas cabe nos metros quadrados de um sonho. Uma cena que apenas eu posso entender.
Um espírito desgraçado, que perdeu qualquer chance de voltar à sua terra natal.

Todos os domingos

Uma vez me disseram que os domingos eram dias sofríveis para as pessoas, pois elas cultivavam a angústia da segunda feira. Aquele último dia de descanso antes de começar tudo outra vez, seja lá o que significa esse tudo, em termos de peso e importância em nossas vidas.
Muitas coisas acontecem exatamente no domingo. Neste último foi dia das mães, foi dia de terminar relacionamento, de trazer sacolas de coisas para a casa, de achar que o dia era triste por si só, já que simbolizam tantas perdas de uma vez.

Acostuma-se com silêncio das ruas, poucas pessoas se atrevem a sair de casa. Moro em uma avenida muito movimentada, exceto pelo domingo, neste dia, ela é um deserto, ou quase isso. A janela é como a TV, onde é transmitido o silêncio da praça, a graça das árvores, as aves cultivando suas coisas, uma xícara de café no parapeito da janela, um vizinho na sacada da frente, tudo aqui é paz.
O amor à paz, ao silêncio e ao ficar em casa é o que tornam estes domingos mais acolhedores. E o trabalho, e o estudo, fazem dele apenas mais um dia. É mais um dia em que se arruma a casa, se faz café, se escreve, se escreve, e assim se passa, com a janela como TV.

Bob

Lembra do beijo no nariz? Era um focinho com marca de batom e era tão doce essa imagem que dava vontade de morder.
Sempre que ele bebia água ficava com uma gota na ponta do nariz. Era o seu jeito, tão felino, altivo e amigo.
Seu nariz era uma espécie de sinalização, tocava em mim para dizer: estou aqui e te gosto.
Nunca precisei de um filho para ter instinto materno. Nesse ser eu via uma companhia nessa vida. E que saudade de você Bob.

 

domingo, 20 de maio de 2018

A angústia da saudade

É uma morte mínima, uma desolação, é como se o outro estivesse morto, e a minha vontade também. Correr contra esse sentimento, lutar por preservar o pouco que sobrou. É o que a razão ordena, mas por onde começo essa limpeza?


Sonambular

Eu fujo da dor e do amor, todas as horas do dia
Mas o amor e a dor são irmãos
um menino e uma menina,
 estão de mãos dadas, 
e me perseguem lá, 
nos sonhos, onde não posso me defender.

Eu gostava de homens muito altos.
Quando encontrava um homem muito alto caminhado pela rua, 
sentia vontade de andar ao seu lado, por alguns instantes 
(como uma criança que pensa: "hoje eu andei ao lado de um grande homem")

Não entendo porquê temos essas particularidades, que mudam conforme o tempo e a época, a vivência.
Deve ser pelo fato de que meu modelo romântico sempre foi
O amor platônico do Professor Girafales (com as rosas e o charuto, claro) e a Dona Florinda. 

É fácil caminhar ao lado de um estranho.
E manter o segredo, tão preso e guardado.
É a sina de ser transeunte e viver caminhando em um mundo de estranhos.




sexta-feira, 11 de maio de 2018

Uma semana de cada vez

Viver o presente, um dia de cada vez, não ter ansiedade e não esperar nada. Como seria fácil se não fosse eu. Minha vida se divide em semanas, em que sigo tentando acertar o meu ritmo com o do mundo. E confesso que vou perdendo... As coisas vão rápido demais, não consigo acompanhar. Se eu não sentisse essa sensação que me assola pela manhã, essa pena da vida, essa vontade de desaparecer, que segue pelo dia até que há um momento em que acaba, talvez eu pudesse fazer muito mais do que faço, talvez fosse a pessoa de sucesso que esperam que eu seja - e não sou.

O meu sucesso é conseguir ser eu mesma. A minha vitória é conquistar uma semana. É conseguir ir a todas as aulas sem perder o ânimo, é conquistar as pessoas pelo que eu sou e não pelas coisas que ostento em meu currículo, corpo ou casa, como se eu fosse uma árvore de natal cheio de adornos desejáveis.
Eu não sou essa árvore. Sou apenas alguém que não precisa de muito para ser feliz. O meu muito é pouco para a maioria. Sou feliz em ver minha casa, sou realizada em estar bem e em paz. Não quero nenhum título, não quero ser nada mais do que penso que sou. Não preciso de um status de relacionamento, não preciso fazer o que todo mundo faz. Eu só quero ler meus livros e viajar quando puder.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

O livro roubado

A Caverna é o livro que iniciou minha paixão pela literatura de José Saramago, e ela tem uma longa história. Vou contar porque é bonita.

A Caverna, como começou
Logo que meu pai morreu eu sonhei com ele. Nesse sonho meu pai me disse para ler um livro do José Saramago e então quando acordei, procurei descobrir quem era esse escritor.
Ao falar com uma amiga, ela me emprestou A caverna, e eu comecei a ler. Porém na época, como era de se esperar, não consegui me concentrar em seu modo de leitura. Saramago tem um jeito peculiar de escrever, misturados a gírias, expressões portuguesas, modos e estilos. É um tipo de texto que é necessário atenção para que seja compreendido em plenitude.
Pois bem, desisti. Mas, logo pensei que não deveria desistir do escritor, pois sonhei, e levo meus sonhos à sério.

Comecei a leitura de outros livros, o primeiro é o Memorial do Convento e daí se seguiu História do Cerco de Lisboa, Todos os Nomes, Ensaio Sobre a Cegueira, entre outros... Montei minha biblioteca com alguns de seus livros, o melhor, até hoje? O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
No ano passado fui visitar uma linda praia e fiquei hospedada em uma casa que ficava na beira do mar.
Nesta casa havia uma biblioteca abandonada, os livros jogados de qualquer maneira, a leitora não residia na casa, e os atuais residentes descuidavam desse espaço.
Tenho essa mania de querer ver as coisas em ordem. Tenho esse espírito virginiano de achar que, em melhorando o espaço, as coisas todas se ordenam. Pois fui organizar os livros, desempoeirá-los, colocar todos em uma ordem, a minha.
Quando percebi, havia muitos livros do Saramago, e entre eles, A Caverna.
Era o livro simbólico, por onde tudo começou. Decidi começar sua leitura.
Nos braços do meu então companheiro, bastava eu olhar pela janela que ali estaria o mar. E então, muitas lágrimas caíram pois o livro era outro! Não era o mesmo livro de difícil leitura de muitos anos atrás. Era sim, uma literatura que queria me dizer algo. Assim eu supunha, pois havia sonhado com o escritor, e procurei saber o que este livro tem a me dizer.
Como tenho essa tendência a deixar as coisas pela metade, larguei o livro de mão logo e voltei para a vida na capital .
Mas o livro veio junto comigo e ficou ali à espera de sua leitura. Prometi para mim que o devolveria após sua leitura, mas sinceramente, não sei como irei fazer isso. Um dos motivos é que ainda não o terminei.
Por incrível que pareça, o livro ainda está sendo lido. E, na época de sua partida da estante, jamais imaginaria que um dia estaria cursando Letras na federal, que estaria cursando a faculdade para a qual talvez (talvez) eu tenha sido destinada e que hoje é como um alívio para meu mundo.
Quando escolhi fazer a cadeira Estudos de José Saramago, percebi que uma das leituras obrigatórias é este livro. E estou em plena leitura, faltando apenas algumas páginas para seu final.
Agora, minha visão sobre seu significado é completamente outro. E a curtição é muito maior.

A História

O livro conta a história de um pai e uma filha. Ele é um oleiro e tem uma filha, um genro e logo encontra um cão. A filha neste ponto do livro está grávida. O conflito acontece em torno do Centro Comercial, que é um espaço que praticamente o obriga a questionar seu modo de vida, pois sua profissão agora se torna obsoleta. As pessoas trocaram os utensílios de barro pelos objetos plásticos e descartáveis.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Por que não acordei antes?

Eu tentei tanto, mas, quanto mais me dedicava, mais era insuficiente. Eu aprendi com a vida, mas parece que sempre é algo novo.
Não consigo mais escrever, pois as palavras me parecem poucas, não encontro as certas.
Por que eu me dediquei tanto e hoje estou aqui sozinha?
Sofrendo as mesmas coisas, passando pelas mesmas dores. Por que nunca sou suficiente, não importa o que eu faça?

Se eu implorei para que ficasse, foi por que eu sabia que as coisas não são eternas e eu queria fazer com que isso durasse, pois eu amava e me dedicava àquela relação.
E numa madrugada eu vi uma foto, de uma moça num quarto cheio de livros abertos. Essa foto me levou a um tempo muito longe daqui, em que eu ficava acordada até tarde, lendo trechos de livros, como quando estava com um amigo, que me tirava daquela ilha solitária em que eu vivia. Como na época em que eu não sabia o que era ter um abraço, ter um irmão, ter uma família de verdade. Voltei tão longe no tempo, que parece que aquilo tudo era apenas um sinal, a fotografia, a memória distante, a morte das coisas por causa do tempo. Só eu preservo, só eu lembro, só.


terça-feira, 10 de abril de 2018

Leitura para a cadeira Estudos de José Saramago - O ano da morte de Ricardo Reis

Estou cursando a cadeira Estudos de José Saramago e uma das leituras que estou fazendo é o livro O ano da morte de Ricardo Reis, ainda estou nas primeiras cem páginas.
A história inicia com Ricardo Reis chegando a Portugal de navio, se instalando num hotel, voltando à cidade depois de 16 anos vivendo no Brasil.
A vida no hotel é contada pelo ponto de vista desse homem solitário que passeia pelas ruas de Lisboa, sempre num tom sombrio e soturno, a chuva que não dá trégua, as multidões, e tudo isso visto de um ponto de vista da solidão de um hóspede do hotel.
A história vai indo e no começo não é deixado claro que esse Ricardo Reis é o mesmo pseudônimo de Fernando Pessoa, mas o autor vai nos preparando para as múltiplas personalidades do personagem, que assim é como o poeta. E neste mesmo ano em que Ricardo Rei retorna à Portugal, ele recebe a notícia de que o poeta Fernando Pessoa morreu e vai ao cemitério ver o túmulo do poeta.
Essa parte, a descrição dos corredores do cemitério e a forma do personagem encontrar o poeta foi sublime. As reflexões sobre a morte e sobre o quanto é breve a vida e as palavras usadas no livro são simplesmente perfeitas, a cada instante renovando ainda mais a minha admiração pelo escritor.
É um livro sobre a perspectiva poética, sobre a vida dos escritores e pessoas sensíveis, e sobretudo, é um livro sobre a solidão de cada um.
O contexto histórico se passa aos idos de 1934, na ditadura de Salazar, o personagem fugindo do Brasil, onde acontecia a Intentona comunista em 1935.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Crise da BAD, que porre!

A brisa entra pelo quarto... é o vento das lápides, ali na frente há um cemitério. Como eles vivem lá, tão quietos, às vezes penso.
A tristeza vem batendo, não sou o que queria ser. Não sou o que esperam de mim, eu não sei mais quem sou.
No quarto, aquela janela tão ampla, onde a lua vem pela madrugada e o sol me incomoda de manhã, é neste quarto que sou apenas eu.
Não tenho o corpo perfeito que desejaria, não tenho o corpo definido como alguns preferem definir, mal sei qual é minha aparência neste momento. Eu só lembro da brisa que vem lá detrás da árvores do camposanto. Aquela brisa que traz memórias tão antigas, vão imprimindo em minha mente algumas tão singelas: as flores novinhas que se abrem pela manhã, as rosas fortes e viçosas que se tornam presentes para alguém, o vento do mar, o abraço daquele que amo, esse abraço quase entrou em meu quarto, é como se ele estivesse aqui.
As cores, tons de azul e por do sol, entravam em minha mente como fotografia.

As pessoas exigem a mulher perfeita, completa, a que faz tudo no tempo certo, a mulher independente, mas nem tanto. É isso o que todos querem, mas o que eu quero?
Passei minha vida inteira sem saber ao certo como responder a essa pergunta. E, agora, mais do que nunca, há uma certa pressa em minha mente. Eu preciso saber. Mas não por mim. A sociedade me cobra. Preciso saber, quais das possibilidades de mulheres incríveis eu sou.
Eu não poderei ter a escolha de não ser nada, de ser apenas a adolescente que sempre fui, a criança que ainda não se curou das suas feridas, a mulher que pensa diferente e não está nem aí.
Mas eu sinceramente gostaria de espaço, mais tempo, mais consideração, para ser e fazer só o que eu posso, só o que eu quero e que tudo seja ao meu tempo. Que tudo seja conforme minha capacidade. Não sou um gênio, não sou uma mulher maravilha, não quero ser nada.
Só gostaria de ter um pouco dessa paz. A paz de não buscar o impossível.

Quando eu era adolescente, achava que tendo minha casa, tendo minha faculdade e fazendo por mim mesma seria o suficiente.
Pois hoje, tenho minha casa, sou formada e estou na minha segunda faculdade, e parece que para muitos, nunca está bom.

Querem sempre te comparar com "o melhor" na opinião deles, a mulher ideal meus caros, é uma fantasia macabra e simplesmente não existe.
É algo que nos colocam como ideal, é o mito da beleza de Naomi Wolf, é um espantalho que fica em nossas janelas, nos assombrando através de cada pequena conquista nossa.
Por favor, me deixem ser eu mesma. Permita-me saber o que é meu e o que é dos outros, eu só preciso saber que tenho defeitos e está tudo bem não ser tudo, não ser como as outras, pois eu sou eu.

Amanhecendo com o nascer do sol

Todos os dias é um tormento o não dormir. Me recuso a deixar o sono vencer.
A vida, é tão rara para mim, cada minuto importa. Mesmo um tempo gasto em nada, mesmo aquele no silêncio.

Desde criança eu tenho medo de dormir. O sono leva embora a possibilidade da lucidez, e de meu apego à vida, a esta vida mais concreta.

Eu mergulho na sombra dos sonhos, encontro fantasmas, criaturas da minha psique, lendas e coisas que li a muito tempo. Esse paraíso raramente é confortante. No mais das vezes são coisas que preciso viver, e que minha vida de vigília não permite.

Já tentei escrever poesia com as histórias noturnas, mas elas mostram coisas demais. Não é possível escrever sobre algo tão nude, não é possível vencer essa barreira das coisas implícitas e claras dentro da mente.

A variação dos sentimentos, as coisas antigas tão profundas, e essa vontade de morrer, só para ter certeza de que, o que se vê nos sonhos, realmente existe em algum lugar.

Meu medo de dormir, é como um medo de dar um passo em frente ao abismo da morte. Aquilo é vida, porém não o sei. Estou a viver coisas tão insólitas, tão implausíveis, tão profundas na minha mente. Uma pena porém, que os protagonistas nada saibam, sequer existam neste mundo terreno, apenas estão ali, segundo meus desejos, assim acho.

É uma pena que os protagonistas jamais saibam que fazem parte das minhas premonições, dos meus medos e das coisas que cercam a aura do tempo noturno.
Contar um sonho é uma atividade frustrante, pois nunca podemos descrever as cenas que vimos, nunca haverá detalhes perfeitos, só os fragmentos. A mente nos obriga a esconder e creio que ela tenha lá suas razões.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A sublimação do amor no romance Sra Dalloway

Sempre adorei aquele filme As Horas, que conta um pouco da história da escritora Virgínia Woolf e de suas personagens, porém nunca havia lido nenhum livro dessa escritora.
Agora que tenho acesso a uma das bibliotecas mais incríveis que já pude conhecer, as bibliotecas da UFRGS, pensei por que não começar a ler algum livro dessa mulher?
Comecei com o livro que inspira o filme. E me surpreendi muito pois as histórias não tem muita ligação, livro e filme neste caso, só se ligam através das horas. O resto corre por si mesmo.

Em Sra Dalloway há uma sublimação do amor. Através do tempo, através dos pensamentos, o amor vai se definindo e se transformando. O que só confirmou minhas suspeitas sobre o ato de amar.
Por experiência própria, sei que o amor jamais morre. Tudo passa, qualquer sentimento, seja ele raiva, atração, admiração, mesmo os mais fortes arroubos, com o tempo passam, terminam, mas o amor nunca passa.

Foi o que se passou nos pensamentos de dois amantes que, embora tenham partido, vivido cada um suas vidas e mesmo indo ao outro ponto do mundo, o amor esteve o tempo todo ali, na força da memória, na intensidade das lembranças e no poder da constatação de que nada é como o amor sentido. Nenhum sentimento se compara ao amor.

Fiz o juramento de que se um dia eu sentisse amor mais uma vez, jamais teria um dia sequer de mau humor em minha vida.
O amor quando é sublimado, transforma-se a cada dia, ao mesmo tempo que se mantém intacto, no espaço profundo da alma. O sentimento está vivo, no alto da torre, à espera de nada, à sombra do mundo, este mundo seco e sem sentido.

No caso dos personagens, eles pensam muito, e sentem através das memórias. É muito alegre a forma como o livro termina, e o seu fim para mim significa o ponto alto do amor. É essa alegria que te move a vida, que tem uma razão de ser, mesmo que não saibamos exatamente qual é.
Como o livro foi muito marcante, demorei para terminar a leitura. Eu tenho esse defeito. Quando algo é muito perfeito eu fico longe, pois tenho medo de ver o final. Mas o final deste livro foi melhor do que eu poderia esperar.
No filme me identifiquei completamente com a escritora. E o que eu continuo pensando é que neste caso, pelo menos, o filme é melhor do que o livro. A minha próxima leitura dessa escritora será Rumo ao Farol.



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

a torre frágil

em frente ao espelho, no corredor do meu apartamento, está meu corpo a conferir se tudo está bem.
é essa a imagem que eu levo para a rua, mas há ainda mais, o que não passa pela minha visão.

à noite madrugada, acordo com a janela aberta, a lua no mais perfeito visual, coloco meus pés no chão.
estou sonhando, vou até meu espelho, e a imagem abre-se.

é tão sério, em tons escuros, a pele branca exposta, a alma muda. nada me diz, e eu nada quero saber.

está ali todo o tempo, eu juro que não sinto, juro também que não o percebo, ao longo dos dias e dias...
Matei muitas coisas ao meu redor na esperança de tirar essa coisa, entalhada na pedra fria que é meu coração.

passa por mim Desconhecido, eu atravesso a rua para evitar cruzar com aquele olhar
que sequer me verá.
nunca verá, pois também não sei mais ver.

fecho os olhos, converso outros assuntos, o sangue por dentro corre, corre a timidez, cai um véu sobre o tempo.

esse tempo que pesa sobre o ar, e pára precisamente agora. ao som de passos, firme decisão.
a manhã fria, não sou eu - são as plantas, as flores, o abismo.
o som dos passos, o som....o som......que sim, tem nome.
corro para o espelho, hoje algo que apenas quebra, a vida que está aqui.

inseparável da dor, está a autossuficiência, a busca por isolar-me, a noite como o mais alto milagre, de estar só, com o reflexo.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Las manos de mi madre


Las manos de mi madre
parecen pajaros en el aire
historias de cocina
entre sus alas heridas
de hambre.

Las manos de mi madre
saben que ocurre
por las mañanas
cuando amasa la vida
hornos de barro
pan de esperanza.



Las manos de mi madre
llegan al patio desde temprano
todo se vuelve fiesta
cuando ellas vuelan
junto a otros pajaros
junto a los pajaros
que aman la vida
y la construyen con los trabajos
arde la leña, harina y barro
lo cotidiano
se vuelve magico.


Las manos de mi madre
me representan un cielo abierto
y un recuerdo añorado
trapos calientes en los inviernos

Isso que ela tá pendurando no varal é massa para fazer macarrão em casa...



Ellas se brindan calidas
nobles, sinceras, limpias de todo
¿como seran las manos
del que las mueve
gracias al odio?


Mercedes Sosa



domingo, 16 de julho de 2017

A coragem

Agora é que está passando... Levantei da cama e fui direto ao banho... a água quente, muito quente, foi levando embora a dor.
Lembrei das palavras da amiga... "A primeira que deve te amar é tu mesma", enquanto lavava meus cabelos, e tentava saber como estava meu corpo, sentindo-me morta, apenas lembrando da vida, por causa da dor.
Dor é um sinal de vida, isso eu sei.

Há alguns meses venho buscando saber coisas sobre mim. O que eu sinto realmente, o que é influência externa, ou interna, mas que não é tão real assim.
Há coisas irreais em mim, preciso descobrí-las para abandoná-las, urgentemente, sob pena de continuar não sendo autêntica, enganando a mim mesma e até mesmo a outros...
Ficar aqui me possibilita isso. Deixar-me um pouco, esquecer os pensamentos, fixar-me no presente. Olhar pela janela a rua, a chuva e o vento fulminante, minhas plantas. Vou conferir se não caíram. Não podem cair, mesmo com o vento forte, me recuso a tirar-lhes da potência da tormenta....

Estudar, ouvir as gravações, a voz da professora recitando poemas, eu busco-os no livro do poeta que mais adoro. Como é perfeito seu modo de escrever. Ao ler seus versos não sinto-me tão só nos sentimentos. Identifico-me com tempos que não existem mais, com coisas que não estão mais ao meu alcance, pois agora, apenas restou este coração que apenas observa, e que pouco consegue sentir.

Uma criança disse no filme de 1961: "Como é triste quando alguém não tem tempo para você".
Vivemos ao longo da vida buscando confirmar se quem amamos nos pode doar seu tempo. Ao amor eu doei praticamente minha vida, e não me arrependo nenhum dia sequer.

Agora, como sempre, ainda não desejo mais saber, me fere o não, do mesmo modo que me fere o sim. Vou me recolher a esta não-vida que escolhi.
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